Os resíduos que produzimos todos os dias podem ser escutados? Que histórias nos contam os materiais que descartamos?
É este o convite, em jeito de reflexão, lançado pelo artista Jacob Kirkegaard em Testimonium, uma instalação sonora multicanal imersiva apresentada no âmbito do programa (de)composição, com curadoria de Raquel Castro, patente na Fundação Calouste Gulbenkian. Até ao dia 18 de maio é possível visitar gratuitamente este projeto no Centro de Arte Moderna Gulbenkian, na Sala de Som.
Através de sensores, hidrofones e microfones afinados para captar vibrações mínimas, Kirkegaard grava os sons produzidos por plásticos, metais, vidro e águas residuais. O que ouvimos não é ruído indiferenciado, mas uma composição feita de ritmos e texturas que revelam a fisicalidade dos resíduos.
O resultado é um retrato sonoro intenso e comovente dos detritos da civilização contemporânea. Um testemunho — como sugere o título — do que é abandonado, ignorado e, por vezes, recuperado. Testimonium lembra-nos que os resíduos não desaparecem: transformam-se, deslocam-se, acumulam-se, deixando marcas ambientais, sociais e políticas profundas.
Para aprofundar esta reflexão, entrevistámos a curadora Raquel Castro, que nos guia pelos princípios conceptuais da exposição e a sua mensagem. A curadora explica como a obra de Kirkegaard procura tornar audível o que habitualmente permanece invisível, propondo uma escuta ativa enquanto fenómeno cultural e político.
Integrada no programa (de)composição, a obra inscreve-se numa reflexão mais ampla sobre a crise do lixo. Não apenas enquanto problema material, mas como símbolo de um modelo de consumo excessivo, de invisibilidade social (dos resíduos e de quem com eles trabalha) e da urgência de mudar mentalidades. A tensão entre composição e decomposição atravessa todo o projeto: organizar versus desagregar, criar versus descartar, ouvir versus ignorar.
Ao longo dos últimos anos, Testimonium tem registado fluxos de resíduos e sistemas de gestão em países como Dinamarca, Letónia, Estónia, Gronelândia, Grécia, África do Sul e Quénia. Em Lisboa, a instalação continua essa escuta atenta, acompanhando os trajetos dos resíduos da cidade e os mecanismos que o transformam, convidando-nos a pensar no impacto quotidiano das nossas escolhas.
Inspirado no pensamento de John Cage, Kirkegaard propõe uma mudança de atitude: escutar o ambiente como forma de consciência. Aquilo que consideramos incómodo ou descartável pode, quando ouvido com atenção, tornar-se revelador.
Este é um convite claro para parar, escutar e repensar a nossa relação com aquilo que descartamos — porque, no fim de contas, os resíduos dizem mais sobre nós do que imaginamos.
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