Um novo impulso para a circularidade do papel em Portugal

Quando falamos em reciclagem, nomeadamente de embalagens, há materiais que dominam quase sempre a conversa. O vidro e o alumínio são os que merecem mais atenção, mas o papel e o cartão também colocam desafios relevantes em Portugal e não podem ser descurados neste processo.

Um novo movimento para acelerar a mudança

Em 2026, a Associação Smart Waste Portugal vai dar início ao Movimento para a Circularidade do Papel (MCP), um grupo de trabalho dedicado exclusivamente ao setor do papel e cartão.

A iniciativa surge com um objetivo claro: reforçar a cooperação entre todos os elos da cadeia de valor — produtores, transformadores, operadores de gestão de resíduos, municípios e academia — para acelerar a circularidade deste material. A lógica é simples: se os desafios são partilhados, as soluções também têm de o ser.

O movimento resulta de um processo de auscultação realizado no final de 2025, que permitiu identificar fragilidades e oportunidades no setor.

Onde estamos a falhar?

Apesar de o papel/cartão ser o principal material de embalagem utilizado em Portugal e representar uma fatia significativa dos resíduos gerados, o seu desempenho nacional em termos de reciclagem encontra-se estagnado quando comparado com a média europeia.

Entre os principais desafios identificados destacam-se:

  • Taxas de reciclagem abaixo do desejável face ao contexto europeu;
  • Falta de articulação eficaz entre os vários intervenientes da cadeia de valor;
  • Dúvidas persistentes sobre a separação correta de determinadas embalagens de papel;
  • Dificuldades técnicas na reciclagem de alguns tipos específicos de papel e cartão.

Ou seja, não se trata apenas de colocar mais papel no ecoponto azul. Trata-se de melhorar processos, alinhar critérios, clarificar mensagens e remover barreiras técnicas.

Circularidade é coerência

Este novo movimento traz uma mensagem importante para o debate público: a transição para a economia circular não pode ser seletiva. Focar esforços nos materiais mais críticos é fundamental, mas descurar os restantes fluxos pode comprometer o desempenho global do sistema.

O papel e o cartão continuam a ser materiais estratégicos — quer pelo volume que representam, quer pelo seu potencial de reciclagem. Manter este tema na agenda pública é evitar retrocessos e promover uma cultura de separação mais clara e consistente.

A circularidade não depende apenas de inovação tecnológica. Depende de coordenação, responsabilidade partilhada e comunicação eficaz. O Movimento para a Circularidade do Papel surge, assim, como mais um passo para tornar o sistema português de gestão de resíduos mais alinhado, mais eficiente e, acima de tudo, mais preparado para os desafios que se avizinham.

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